Ainda a Bienal…

Com a correria de fim de ano o post sobre a visita da GAROA à Bienal acabou atrasando… Mas vamos lá. Há algumas coisas interessantes a serem ditas sobre o principal evento de arte do ano na cidade da garoa.

Em um balanço do resultado da Bienal, o lado positivo é que houve arte. Parece óbvio, mas não custa lembrar que a Bienal anterior foi a esdrúxula Bienal do Vazio. O lado negativo é que o público foi apenas metade do que era esperado para este evento tão especial.

Um dos motivos para isso pode ser a falta de intimidade que os paulistanos e brasileiros em geral ainda têm com a arte. O que não faltaram foram comentários de visitantes da Bienal achando que a maior parte da mostra era muito estranha, de difícil assimilação. Para além da discussão do “isto é arte?”, ou mesmo da conclusão de muitas pessoas de que “não entendo de arte”, podemos aqui usar a noção de intimidade com a arte. E a seleção de obras desta Bienal não pareceu favorecer um aumento neste sentimento de intimidade com a arte por parte dos visitantes.

Num país em que a arte ainda é pouco difundida na população, as crianças da foto acima – e grande parte dos adultos – tendem a ter reações de perplexidade frente à maioria das obras. Claro que um dos objetivos da arte pode ser o de gerar perplexidade, mas isso não pode ser a sensação predominante. Pelo contrário, os trabalhos a fazerem parte da Bienal em um país como o Brasil deveriam ter como objetivo criar intimidade. Não podemos ter só trabalhos muito de vanguarda ou experimentais. Assim como para criar intimidade com a música clássica é mais recomendável começar ouvindo Mozart do que compositores russos modernos, para criar intimidade com a arte seria mais recomendado fazer um mix de obras menos experimental, talvez sem tantos videos…

A obra acima do turco Ataman, por exemplo. É um dos itens de uma série de videos de pedintes nas ruas. Não vamos julgar seu valor. Mas vamos defender que este tipo de obra não pode ser a maioria em um país que ainda precisa criar intimidade com trabalhos menos inusitados. O trabalho abaixo, de Rodrigo Andrade, por exemplo, integra uma série denominada Matéria Noturna e parece uma aposta mais acertada da curadoria. Em vez de perplexidade, a série de grandes telas com cores escuras e imagens misteriosas logo na entrada da Bienal parecia levar os visitantes a apreciar e a refletir. O perigo é que da reflexão a partir desta tela em especial possa sair a conclusão de que a estrada pela qual a arte caminha no Brasil não anda lá muito iluminada…

A falta de intimidade do público com as obras também leva a fatos desagradáveis como o de que a presença dos urubus na obra abaixo de Nuno Ramos, Bandeira Branca, tenha sido muito mais discutida do que as sensações que a obra despertava nas pessoas. Para mais sobre a obra de Nuno, ver o post Polêmica na Bienal.

Que fique claro que não estamos dizendo que obras mais experimentais ou inusitadas não devam estar presentes e não tenham seu valor. As obras abaixo são dois exemplos muito interessantes deste tipo de arte, um da velha geração, com Helio Oiticica, e outro da nova geração, com Tatiana Blass (aliás, artista que tem outra obra interessante aparecendo no catálogo da GAROA). Só estamos defendendo que para que esse tipo de obra de arte possa ser mais apreciado, é preciso que antes as pessoas cultivem uma relação de intimidade com a arte em geral, o que parece mais adequado ser feito inicialmente através de obras de mais fácil assimilação. Faz sentido? Opiniões são bem-vindas!




3 Comments to Ainda a Bienal…

  1. Alberto Tassinari's Gravatar Alberto Tassinari
    27 de dezembro de 2010 at 8:05 | Permalink

    Não concordo de todo com o texto “Ainda a Bienal”. É um texto bem escrito, embora com um uso do humor, que certas imagens sugerem, não muito revelador. Por exemplo:”a estrada pela qual a arte caminha no Brasil não anda lá muito iluminada…”. Não é bem certo isso. Está iluminada sim. É difícil abrir mão de uma boa frase, mas seria melhor ter cortado esse trecho. É inteiramente verdadeira a tese do texto sobre a pouca intimidade do público com a arte contemporânea. É a parte com a qual concordo. Mas discordo que promover isso seja função de uma Bienal. A Bienal tem a função de mostrar o que há de melhor no mundo das artes a cada dois anos, com obras experimentais á vontade. O que dificulta um diálogo (prefiro ao termo intimidade, dada a dimensão pública da arte contemporânea)mais intenso das obras com o espectador são duas coisas: 1. A Bienal muitas vezes não mostra o que está ocorrendo de melhor; 2. Mais importante, porém, é que o público não mantém, em geral, um diálogo mais vital com as obras porque as instituições pemanentes de arte, os museus em especial, não cumprem seus papéis. Não há um só museu no Brasil que preencha o mínimo das condições para uma convivência vitalizadora entre a arte e o público. Não havendo, a Bienal, uma instituição cíclica, não permanente, acaba caindo no vazio. É algo como assistir um jogo de beisebol sem saber as regras. Como é o meu caso. Aqui e ali algo chama minha atenção, mas, em geral, fico boiando.

    • Taisa Palhares's Gravatar Taisa Palhares
      26 de março de 2011 at 0:49 | Permalink

      Beto, concordo que o papel da Bienal não é promover a relação de “intimidade” do público com a arte. Isso é sim papel das instituições. Mas discordo de que elas não têm feito isto. Trabalhamos cotidianamente para também exibir a arte contemporânea nas instituições, pelo menos em São Paulo.
      Ocorre que a imprensa (e consequentmeent eo grande público) se lembra da arte apenas na época das Bienais e muitas vezes boas exposições nos museus são pouquíssimo visitadas pois não há quase repercussão na mídia. Quem viu a exposição de Carmela Gross durante a Bienal, que a meu ver trazia um diálogo entre arte/cidade/ política muito mais interessante do que a maioria das obras expostas na grande mostra?
      Acho que o problema é de educação mesmo, e me refiro aqui às pessoas que teriam naturalmente acesso à arte.

  2. Magele's Gravatar Magele
    6 de janeiro de 2011 at 0:57 | Permalink

    Toda arte é, de algum modo, inspiração e transformação. E todo diálogo sobre a arte edifica nossa condição humana.
    Por isso gostaria de compartilhar com vocês um vídeo produzido pelo meu time de trabalho depois de nossa visita à bienal.

    http://vimeo.com/17921472

    Abraços,

    Magele

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